Earth-crust-cutaway-english.png desde o Núcleo à Exosfera (escala variável).]] O Manto é a camada da estrutura da Terra (e dos outros planetas de composição similar) que fica directamente abaixo da crusta prolongando-se em profundidade até ao limite exterior do núcleo. O manto terrestre estende-se desde cerca de 30 km de profundidade (podendo ser bastante menos nas zonas oceânicas) até aos 2 900 km abaixo da superfície (transição para o núcleo). A difrenciação do manto iniciou-se há cerca de 3 800 milhões de anos, quando a segregação gravimétrica dos componentes do proto-planeta Terra produziram a actual estratificação. A pressão na parte inferior do manto atinge mais de 140 GPa (umas espantosas 1 400 000 atmosferas).
Em tempos pensou-se que a Moho representava a fronteira entre a estrutura rígida da crusta e a zona mais plástica do manto, sendo a zona onde o movimento relativo entre as placas da litosfera rígida e a astenosfera plástica ocorreria. Contudo, estudos recentes demonstram que essa fronteira acontece muito abaixo, em pleno manto superior, a profundidades da ordem dos 70 km sobre crusta oceânica e de 150 km sob a crusta continental. Assim, o manto imediatamente abaixo da crusta é composto por material relativamente frio (aprox.100º C), rígido e fundido com a crusta, apesar de estar dela separado pela Moho. Tal demonstra que a Moho é na realidade uma descontinuidade composicional e não uma zona de separação dinâmica.
O quadro seguinte dá uma composição aproximada dos materiais do manto em percentagem da sua massa total (% ponderal). Note-se que a composição do manto poderá não ser uniforme, sendo de esperar um aumento gradual da razão Fe/Mg com a profundidade, especulando-se que varie de 0,25 no manto superior até 0,6 no manto inferior.
| Elemento | Quantidade | Composto | Quantidade | |
|---|---|---|---|---|
| O | 44.8 | |||
| Si | 21.5 | SiO2 | 46 | |
| Mg | 22.8 | MgO | 37.8 | |
| Fe | 5.8 | FeO | 7.5 | |
| Al | 2.2 | Al2O3 | 4.2 | |
| Ca | 2.3 | CaO | 3.2 | |
| Na | 0.3 | Na2O | 0.4 | |
| K | 0.03 | K2O | 0.04 | |
| Total | 99.7 | Total | 99.1 |
Vários modelos têm sido propostos sugerindo que o manto inferior contém mais ferro do que o manto superior. Neste caso, a razão Fe/Mg variaria de 0,25 no manto superior a 0,6 no manto inferior. O aumento na massa atómica média aumentaria a densidade até valor observado, sem a necessidade de recorrer a estruturas moleculares complexas.
Estes modelos tem gerado muitas discussões, pois se o manto inferior é mais denso do que o superior seria difícil ocorrer movimentos de convecção. Por outro lado, existindo convecção generalizada no manto seria difícil manter a heterogeneidade da composição química por grandes intervalos de tempo. Entretanto, estas dificuldades podem ser contornadas admitindo-se a existência de células de convecção independentes no manto.
As velocidades das ondas sísmicas medidas nesta camada são tipicamente de 8,0 a 8,2 km/s, as quais são maiores do que as da crosta inferior (6,5 a 7,8 km/s). Os dados geofísicos demonstram que entre 50 e 200 km (ou mais nas zonas de subducção) de profundidade ocorre uma diminuição na velocidade das ondas P (longitudinais) e uma forte atenuação das ondas S (transversais), daí que esta região seja conhecida como zona de baixa velocidade.
Evidências baseadas em dados geofísicos, geológicos e petrológicos, e a comparação com corpos extraterrestres, indicam que a sua composição do manto superior é peridotítica. Os peridotitos são uma família de rochas ultrabásicas, tipicamente compostas por olivina magnésica (aprox. 80%) e piroxenas (aprox. 20%). Embora raros à superfície, peridotitos afloram nalgumas ilhas oceânicas, em camadas levantadas pela orogénese e em raros kimberlitos.
Experiências de fusão de peridotitos mostram que a sua fusão parcial pode originar os basaltos oceânicos nas condições de pressão e temperatura existentes no manto superior. Este processo ocorre provavelmente na zona de baixa velocidade, explicando a redução das velocidade sísmica pela fusão parcial dos materiais.
Os estudos efectuados em ofiolitos e na litosfera oceânica demonstram que a formação da crusta oceânica (com os seus meros 5 km de espessura média) se efectua a partir da porção mais superficial do manto superior. O grau de fusão parcial deve atingir os 25%, empobrecendo esta zona em componentes de mais baixa temperatura de fusão. Existem provas indirectas de que o manto se torna menos empobrecido em silicatos com o aumento da profundidade.
Os peridotitos do tipo granada-lherzolito (olivina (60%), orto e clino piroxenas (30%), espinélio, granadas e plagioclase (10%)), representam provavelmente os peridotitos do manto primitivo, que ao sofrerem fusão parcial originam magmas basálticos, deixando como resíduos harzburgitos (olivina (80%), ortopiroxenas (20%)) e dunitos (olivina). Tendo em conta as relações de pressão e temperatura, conclui-se que em profundidades menores a mineralogia deve ser dominada pelo complexo plagioclase-lherzolito (frequentemente encontrado em ofiolitos) e que com o aumento da pressão passará dominar o complexo espinélio-lherzolito (que forma por vezes nódulos em basaltos alcalinos). Em pressões maiores a mineralogia mais estável é a do complexo granada-lherzolito (que forma nódulos em kimberlitos).
A densidade nesta região aumenta linearmente de 4,6 até 5,5. Aparentemente nenhuma mudança de fase importante ocorre no manto inferior, apesar de ocorrerem pequenos gradientes de velocidade nos 1230 e 1540 km de profundidade. Desta forma, acredita-se que o aumento na velocidade deve ocorrer principalmente como resultado da compactação de um material de composição uniforme. Vários modelos têm sido propostos sugerindo que o manto inferior contém mais ferro do que o manto superior.
A temperatura varia de 1.000º C a 3.000° C, aumentando com a profundidade e com o calor produzido pelo desintegração radioactiva e por condução a partir do núcleo externo (onde a produção de calor por fricção face aos fluxos que geram o geomagnetismo é grande).
Contudo, tal não impede que diapiros plutónicos isolados não subam em direcção à superfície e que fragmentos de crusta mais fria e densa não se afundem nas zonas de subducção, formando extensas zonas de refusão de materiais crustais. A baixa plasticidade força estes movimentos a uma extrema lentidão, fazendo-os persistir por centenas de milhar, ou mesmo milhões, de anos.
Nas zonas onde os diapiros persistem e se aproximam da superfície, levando à fusão dos materiais à medida que a pressão diminui com a subida, formam-se hot spots que depois se traduzem à superfície por formações intrusivas ou por vulcanismo persistente ou espessamento da crusta oceânica. Nas zonas de subducção, a subida dos materiais fundidos e o efeito da introdução de enormes quantidades de água no manto levam ao surgimento dos arcos insulares (como as Antilhas) e das cadeias vulcânicas (como a cordilheira dos Andes).
A convecção no manto terrestre é um processo caótico de dinâmica de fluidos que parece determinar o movimento das placas tectónicas e por essa via a deriva dos continentes. Neste contexto convém ter presente que a deriva dos continentes é apenas parte do processo de deslocamento das placas tectónicas, já que a rigidez destas e os fenómenos de geração de nova crusta que ocorrem aos longo dos riftes e de destruição ao longo das regiões de subducção, dão a este um carácter bem mais complexo.
Por outro lado, o movimento da litosfera está necessariamente desligado do da astenosfera, fazendo com que as placas se desloquem com velocidades relativas diferentes sobre o manto. Daí que os hot-spots possam dar origem a cadeias de ilhas (como os arquipélagos do Hawaii e dos Açores), com cada ilha ou vulcão marcando a posição relativa do hot-spot face à placa litosférica em determinado tempo.
Dada a complexidade dos fenómenos de convecção no manto existem grandes incertezas na sua modelação, admitindo-se mesmo que existam diferentes células convectivas em camadas distintas do manto, criando um sistema com múltiplos andares entre o núcleo e a crosta.
Apesar de existir uma tendência geral de aumento da viscosidade com a profundidade, esta relação não é linear e parece existirem camadas com viscosidade muito maior do que o esperado no manto superior e junto à zona de transição para o núcleo externo.
Devido à baixa viscosidade da astenosfera seria de esperar que não existissem sismos com hipocentros situados a mais de 300 km de profundidade. Tal é em geral verdadeiro, com os sismos nas zonas oceânicas raramente descendo abaixo dos 25 km, e os sismos nas zonas continentais ocorrendo a partir de focos sitos em geral por volta dos 30-35 km de profundidade. Contudo, nas zonas de subducção o gradiente geotérmico pode ser substancialmente reduzido, aumentando a rigidez do material do manto em seu redor. Daí que já tenha sido registados nestas regiões sismos com profundidades focais de 400 km a 670 km, sendo, não obstante, eventos em extremo raros.
A pressão nas camadas inferiores do manto atinge os ~140 GPa (1.4 Matm). Apesar destas gigantescas pressões, que aumentam com a profundidade, pensa-se que todo o manto mesmo assim se deforme como um fluido muito viscoso quando considerado em longos períodos de tempo. A viscosidade do manto superior varia de 1021 and 1024 Pa·s, dependendo da profundidade. Daí que qualquer movimento no manto tenha de ser necessariamente hiper-lento.
Esta situação de alta viscosidade contrasta vivamente com a fluidez do núcleo externo, embora este esteja submetido a uma pressão ainda maior. Tal contraste resulta do núcleo ser composto quase inteiramente por ferro puro cujo ponto de fusão é muito inferior ao dos compostos de ferro existentes no manto. Assim, os compostos de ferro do manto inferior, apesar de submetidos a uma pressão inferior, estão no estado sólido (embora se comportando nas grandes escalas de tempo como um fluido de viscosidade extrema), enquanto o núcleo externo, de ferro quase puro, está em estado líquido. O núcleo interno está em estado sólido dadas as pressões extremas a que está submetido.
As implicações desta diferença entre o manto e o núcleo esterno (e entre este e o interno) são determinantes para a vida na Terra pois é daqui que nasce o campo magnético terrestre que funciona como um escudo electromagnético protegendo a vida na superfície terrestre das radiações ionizantes do espaço exterior e dos ventos solares.
Depois do abandono do projecto Mohole, que nos anos de 1970-1980 pretendeu fazer uma perfuração que atingisse a descontinuidade de Mohorovičić, está prevista para 2007 nova tentativa. Desta vez será utilizado o navio japonês Chikyu para perfurar 7 000 m na crusta oceânica, cerca do triplo da profundidade máxima já atingida em fundos oceânicos, com o objectivo de obter materiais da descontinuidade e das camadas do manto superior imediatamente abaixo.
Mantell terrestre | Zemský plášť | Erdmantel | Μανδύας (γεωλογία) | Mantle (geology) | Vahevöö | Maan vaippa | Manteau (Terre) | Manto | מעטפת כדור הארץ | Mantello terrestre | マントル | 맨틀 | Mantija | Aardmantel | Płaszcz ziemski | Мантия Земли | Zemský plášť | เนื้อโลก | Manto | 地幔