Santa Helena fica a cerca de 1200 milhas da costa de Angola e é um território dependente do Reino Unido onde moram cerca de 5000 pessoas. É uma ilha de origem vulcânica com 122km2 e, à distância, parece uma fortaleza que se ergue abruptamente do mar, com uma linha de precipícios íngremes e inacessíveis cujo ponto mais alto atinge 820 metros. Nenhuma vegetação é visível até nos aproximarmos. Em condições normais é impossível ancorar e desembarcar, excepto no lado NW da ilha, em James Bay, e mesmo aí é uma tarefa complicada, dado a ondulação que entra com toda a força na baía. Não há porto, há um molhe continuamente batido pelas vagas ao qual é impossível acostar e toda a gente desce a terra num pequeno ferry que transporta as pessoas e bens até à parte mais abrigada (ainda assim pouco) do molhe.
A ilha foi descoberta, naturalmente, por navegadores portugueses. João da Nova Castela regressava da Índia com uma esquadra de quatro naus e a 21 de Maio de 1502 foi, com a sua tripulação, o primeiro a desembarcar na ilha, então desabitada. Desde então foi um ponto de escala nas rotas do Atlântico Sul. Conseguimos guardar segredo deste precioso porto de escala até 1588, quando o capitão inglês Cavendish, guiado (voluntariamente ou não, nunca saberemos) por um piloto português, que tinha capturado num galeão espanhol, aportou a Santa Helena. Como de costume, os navegadores portugueses descobriam um território, deixavam um padrão, faziam cartas e prosseguiam viagem. Os ingleses, com outra filosofia e outros meios, cedo descobriram as vantagens de se estabelecerem permanentemente e assim fizeram.
Com o fim da idade da vela, a abertura do Canal do Suez e o surgimento da aviação transcontinental, Santa Helena perdeu a sua importância estratégica. É hoje um dos lugares mais remotos da Terra, a que só se chega por via marítima. O RMS Santa Helena é o último dos navios correio e única ligação regular da ilha com o resto do mundo, aportando a Jamesbay cerca de uma vez por mês. É difícil encontrar um lugar mais isolado.
Os “Santos”, como os naturais se chamam, são das pessoas mais simpáticas, amigáveis e curiosas que tenho conhecido. São uma mistura incrível de um sem número de raças que foram chegando à ilha ao longo destes 500 anos: portugueses, ingleses, holandeses, malaios, chineses, javaneses, africanos. Vive-se a um ritmo de ilha tropical, ninguém fecha os carros e as chaves estão sempre na ignição. Toda a gente se cumprimenta nas ruas e se perguntamos onde fica alguma coisa o mais provável é largarem o que estão a fazer e levar-nos lá pessoalmente.
Está em discussão a construção de um aeroporto na ilha. Compreendo bem as vantagens para os naturais e compreendo bem que a maioria das pessoas esteja a favor, mas quando e se se construir o aeroporto, quebra-se o isolamento e quebra-se o encanto...
Em 1815 Napoleão Bonaparte, vencido em boa hora pelos ingleses em Waterloo, é feito prisioneiro. O governo britânico procurou nos seus domínios um sítio conveniente para fechar de uma vez por todas o tirano. A ilha-fortaleza do Atlântico Sul foi a escolha óbvia e para lá foi levado Bonaparte por uma esquadra da Royal Navy. Nada nem ningúem se pode aproximar de St.Helena sem ser visto a um dia de distância; só se pode desembarcar numa baía fechada, qualquer fuga com meios locais está condenada ao fracasso, dadas as distâncias das costas mais próximas. Napoleão desesperou e morreu em Santa Helena, em 1821.
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