A Hepatite B é uma doença infecciosa frequentemente crónica causada pelo vírus da Hepatite B (HBV). É transmitida sexualmente ou por agulhas infectadas e pode progredir para cirrose hepática ou cancro do fígado (hemocromatose). O vírus da hepatite D é um virus que só ataca células já infectadas pelo HBV piorando o prognóstico dos doentes com hepatite B crónica.
O virus da Hepatite B é um Hepadnavirus com genoma de DNA bicatenar (dupla hélice) circular. Tem predilecção forte pela infecção dos hepatócitos do fígado. Ele multiplica-se no núcleo da célula infectada, utilizando as enzimas de replicação de DNA da própria célula humana. A sua replicação invulgar consiste na formação de mRNA a partir do genoma de DNA, que são usados na síntese das proteínas virais, e RNA especial que depois é convertido em DNA pela enzima transcriptase reversa, uma enzima que será mais caracteristica dos retrovirus.
A partícula viral ou virion do HBV é denominada partícula de Dane e tem cerca de 40 nanómetros de diâmetro, podendo ser filamentosa ou esférica. Possui um envelope bílipidico, onde existe a proteína membranar viral HBs (s de surface: superfície). O capsídeo interno ao envelope, que protege o genoma e algumas cópias de enzima transcriptase reversa (necessária já que as células humanas não a produzem), é formado pela proteína HBc (c de core:capsídeo). A proteína HBe é uma proteína viral pouco importante mas também é lançada no sangue e portanto importante para a resposta do sistema imunitário.
O HDV é um virus com 35 nanómetros e um genoma de RNA circular minusculo (apenas 1700 bases) de sentido negativo. Codifica apenas duas proteínas e usa a proteína HBs no seu envelope. Uma curiosidade interessante sobre o virus é que o próprio genoma de RNA funciona como uma enzima não proteica (é uma ribozima) e cliva os seus próprios produtos transcritos.
O agente delta ou virus da hepatite D é transmitido de doentes com ambos HBV e HDV para doente com HBV crónico apenas pelas mesmas vias e nos mesmos grupos de risco.
Cerca de 5% da população mundial terá a doença ou será portadora assimptomática. Nos EUA há 300.000 novos casos por ano (a grande maioria resove-se: ver abaixo) e 4000 mortes. O ser humano é o único a ser infectado, não existindo reservatórios animais. Grupos em risco são individuos sexualmente promiscuos, toxicodependentes e profissionais de saúde. A imunização (vacina) no entanto protege eficazmente.
Há um milhão de mortes por carcinoma hepatocelular por ano, e 80% dos casos estarão associados ao virus.
Em 1% dos casos a hepatite é fulminante e pode ser mortal. Cerca de 90% dos individuos infectados resolvem a infecção após o episódio agudo ou assimptomático de forma completa e curam-se. Contudo em 10% dos casos a infecção torna-se crónica. Mesmo dentro deste décimo de casos crónicos, alguns tornam-se portadores infecciosos sem sintomas, outros têm uma hepatite não progressiva com replicação viral mínima e apenas alguns desenvolvem um curso progressivo. A seguinte discussão refere-se à progressão nestes individuos, que sofrem da "verdadeira" hepatite B, com cronicidade e alto risco de complicações.
A sobreinfecção pelo virus da hepatite D pode transformar o curso benigno de uma hepatite B numa doença altamente agressiva (curso fulminante mortal) e piora o prognóstico daqueles que já têm curso progressivo, diminuindo a sua esperança de vida.
O HBV infecta e multiplica-se nas células sem as destruir, e maior parte dos danos e sintomas da hepatite que provoca são devidos à resposta citotóxica necessária e por vezes eficaz desenvolvida pelo sistema imunitário contra as células humanas infectadas. O reconhecimento das células infectadas é feito pela detecção de proteínas virais que são expressas na membrana celular da célula-hóspede e portanto expostas ao exterior. A tendência para a cronicidade da hepatite B é devida à infecção latente que o virus pode produzir em algumas células. Ele é capaz de integrar o seu genoma de DNA nos cromossomas humanos, e lá permanecer sem se multiplicar perfeitamente escondido do sistema imunitário, enquanto os virions em multiplicação activa são destruidos. Mais tarde, em resposta a determinados estímulos, pode voltar a ficar activo. Além disso a elevada taxa de mutação do virus permite mudanças na conformação das suas proteínas externas, que tornam a resposta imunitária específica menos eficaz.
O fígado responde de duas formas à destruição das suas células. Inicialmente os hepatócitos regeneram o tecido perdido, mas tarde com os danos repetidos inicia-a se também a produção de tecido conjuntivo fibroso pelos fibrócitos. Com danos continuos, a capacidade de regeneração dos hepatócitos é insuficiente, e a fibrose torna-se predominante, levando à cirrose hepática com insuficiência hepática devido ao pequeno numero de hepatocitos, que não se pode multiplicar devido à resistencia do tecido conjuntivo modelado à sua volta. A cirrose hepática é uma condição inevitavelmente fatal, e mesmo o transplante de fígado só permite a vida durante alguns anos devido à rejeição progressiva do orgão estranho.
A replicação aumentada dos hepatocitos aumenta a probabilidade de outra complicação: o carcinoma hepatocelular. A maioria das mutações genéticas que resultam no cancro (tumor) ocorrem durante a replicação celular, em que o processo de cópia do DNA conduz quase sempre a alguns a erros. Com a regeneração continua do tecido do fígado devido à destruição das células pelo virus (e resposta imunitária) esses erros acumulam-se. Outro mecanismo de mutação é a própria inserção mais ou menos aleatória do genoma do virus nos cromossomas: se algum gene ou região regulatória for interrompida, genes anti-tumorais podem ser inactivados ou genes pró-tumorais (oncogenes) hiperactivados. O resultado é que a infecção crónica pelo HBV é uma das mais importantes causas do carcinoma hepatocelular -o cancro de longe mais comum do fígado, e de mau prognóstico.
A sobre infecção de doentes com hepatite B crónica com agente delta pode levar à encefalopatia hepática (deterioração das funções intelectuais devido à incapacidade do figado de controlar os niveis de amónia neurotóxica do sangue) mais facilmente e exacerba todos os sintomas.
Não há tratamento eficaz para a hepatite B. A única medida é a prevenção pela vacina, que é eficaz. A vacina é constituida pelos antigénios HBs, sem nenhuma particula viral. Administra-se por inoculação. Se a pessoa após alguns meses apresentar anticorpos anti-HBs em suficiente número, não necessitam de mais injecções, mas aqueles com menor resposta requerem novas inoculações, até três, espaçadas. Em muitos países é obrigatória. Cerca de 5% dos individuos que receberam a vacina poderão não estar mesmo assim efectivamente imunes.
Não há vacina contra HDV mas como só infecta doentes crónicos com HB a vacina do HBV é protectora. Em doentes com hepatite B, a única prevenção é a abstinencia de comportamentos de risco: sexo promiscuo e uso de seringas partilhadas.
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