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A Hepatite B é uma doença infecciosa frequentemente crónica causada pelo vírus da Hepatite B (HBV). É transmitida sexualmente ou por agulhas infectadas e pode progredir para cirrose hepática ou cancro do fígado (hemocromatose). O vírus da hepatite D é um virus que só ataca células já infectadas pelo HBV piorando o prognóstico dos doentes com hepatite B crónica.

Vírus da Hepatite B (HBV)


  • Grupo: Grupo VII (dsDNA-RT)
  • Familia: Hepadnaviridae
  • Género: Orthohepadnavirus
  • Espécie: Hepatitis B virus

O virus da Hepatite B é um Hepadnavirus com genoma de DNA bicatenar (dupla hélice) circular. Tem predilecção forte pela infecção dos hepatócitos do fígado. Ele multiplica-se no núcleo da célula infectada, utilizando as enzimas de replicação de DNA da própria célula humana. A sua replicação invulgar consiste na formação de mRNA a partir do genoma de DNA, que são usados na síntese das proteínas virais, e RNA especial que depois é convertido em DNA pela enzima transcriptase reversa, uma enzima que será mais caracteristica dos retrovirus.

A partícula viral ou virion do HBV é denominada partícula de Dane e tem cerca de 40 nanómetros de diâmetro, podendo ser filamentosa ou esférica. Possui um envelope bílipidico, onde existe a proteína membranar viral HBs (s de surface: superfície). O capsídeo interno ao envelope, que protege o genoma e algumas cópias de enzima transcriptase reversa (necessária já que as células humanas não a produzem), é formado pela proteína HBc (c de core:capsídeo). A proteína HBe é uma proteína viral pouco importante mas também é lançada no sangue e portanto importante para a resposta do sistema imunitário.

O Virus da Hepatite (HDV) ou Agente Delta


O agente delta é um virus "incompleto". Ele é deficiente em quase todas as proteínas necessárias à replicação e só pode multiplicar-se em células já infectadas pelo virus da hepatite B, utilizando as enzimas codificadas por ele além dos recursos da célula humana. É assim um virus que parasita outro virus, o qual parasita a célula humana. Mas os maiores danos são causados não à replicação do HIV mas às células humanas. A infecção do doente crónico com Hepatite B do HDV piora o prognóstico significativamente.

O HDV é um virus com 35 nanómetros e um genoma de RNA circular minusculo (apenas 1700 bases) de sentido negativo. Codifica apenas duas proteínas e usa a proteína HBs no seu envelope. Uma curiosidade interessante sobre o virus é que o próprio genoma de RNA funciona como uma enzima não proteica (é uma ribozima) e cliva os seus próprios produtos transcritos.

Transmissão e Epidemiologia


O virus existe no sangue, saliva, sémen, secreções vaginais e leite materno de doentes ou portadores assimptomáticos. A transmissão é semelhante à da SIDA/AIDS: via sexual, agulhas infectadas ou de mãe para o feto ou recém-nascido. São ainda frequentes casos de transmissão por agulhas de tatuagem, piercing ou acupunctura em estabelecimentos não licenciados. O virus é muito mais resistente e de transmissão mais fácil que o HIV, e persiste mais tempo nesses instrumentos, mas é destruido pela lavagem cuidadosa e esterilização pelo calor. Resiste por vezes ao pH baixo (ácido), calor moderado e temperaturas baixas. É capaz de sobreviver no ambiente por pelo menos uma semana.

O agente delta ou virus da hepatite D é transmitido de doentes com ambos HBV e HDV para doente com HBV crónico apenas pelas mesmas vias e nos mesmos grupos de risco.

Cerca de 5% da população mundial terá a doença ou será portadora assimptomática. Nos EUA há 300.000 novos casos por ano (a grande maioria resove-se: ver abaixo) e 4000 mortes. O ser humano é o único a ser infectado, não existindo reservatórios animais. Grupos em risco são individuos sexualmente promiscuos, toxicodependentes e profissionais de saúde. A imunização (vacina) no entanto protege eficazmente.

Há um milhão de mortes por carcinoma hepatocelular por ano, e 80% dos casos estarão associados ao virus.

Progressão e Sintomas


O período de incubação da doença vai de um mês até três meses. Segue-se em 25% dos casos uma hepatite de progressão rápida com episódio agudo caracterizado por icterícia (pele e conjunctiva dos olhos amarelas), febre, falta de apetite (anorexia), mal estar, urina cor de vinho do porto, (colúria), nauseas e comichão. Cerca de 75% poderão ser assimptomáticos mas mesmo assim em risco de desenvolvimento de cronicidade. Estes sintomas duram de duas semanas a três meses. O que sucede a seguir depende da resposta do sistema imunitário. Se os linfócitos T citotóxicos forem agressivos, a doença é resolvida e o doente curado. Se forem muito agressivos, pode ocorrer hepatite fulminante e morte. Se a resposta for insuficiênte, ocorre estado de portador ou hepatite crónica. O sistema imunitário ineficaz e ainda em desenvolvimento dos neonatos leva a que 90% deste grupo desenvolva cronicidade.

Em 1% dos casos a hepatite é fulminante e pode ser mortal. Cerca de 90% dos individuos infectados resolvem a infecção após o episódio agudo ou assimptomático de forma completa e curam-se. Contudo em 10% dos casos a infecção torna-se crónica. Mesmo dentro deste décimo de casos crónicos, alguns tornam-se portadores infecciosos sem sintomas, outros têm uma hepatite não progressiva com replicação viral mínima e apenas alguns desenvolvem um curso progressivo. A seguinte discussão refere-se à progressão nestes individuos, que sofrem da "verdadeira" hepatite B, com cronicidade e alto risco de complicações.

A sobreinfecção pelo virus da hepatite D pode transformar o curso benigno de uma hepatite B numa doença altamente agressiva (curso fulminante mortal) e piora o prognóstico daqueles que já têm curso progressivo, diminuindo a sua esperança de vida.

O HBV infecta e multiplica-se nas células sem as destruir, e maior parte dos danos e sintomas da hepatite que provoca são devidos à resposta citotóxica necessária e por vezes eficaz desenvolvida pelo sistema imunitário contra as células humanas infectadas. O reconhecimento das células infectadas é feito pela detecção de proteínas virais que são expressas na membrana celular da célula-hóspede e portanto expostas ao exterior. A tendência para a cronicidade da hepatite B é devida à infecção latente que o virus pode produzir em algumas células. Ele é capaz de integrar o seu genoma de DNA nos cromossomas humanos, e lá permanecer sem se multiplicar perfeitamente escondido do sistema imunitário, enquanto os virions em multiplicação activa são destruidos. Mais tarde, em resposta a determinados estímulos, pode voltar a ficar activo. Além disso a elevada taxa de mutação do virus permite mudanças na conformação das suas proteínas externas, que tornam a resposta imunitária específica menos eficaz.

O fígado responde de duas formas à destruição das suas células. Inicialmente os hepatócitos regeneram o tecido perdido, mas tarde com os danos repetidos inicia-a se também a produção de tecido conjuntivo fibroso pelos fibrócitos. Com danos continuos, a capacidade de regeneração dos hepatócitos é insuficiente, e a fibrose torna-se predominante, levando à cirrose hepática com insuficiência hepática devido ao pequeno numero de hepatocitos, que não se pode multiplicar devido à resistencia do tecido conjuntivo modelado à sua volta. A cirrose hepática é uma condição inevitavelmente fatal, e mesmo o transplante de fígado só permite a vida durante alguns anos devido à rejeição progressiva do orgão estranho.

A replicação aumentada dos hepatocitos aumenta a probabilidade de outra complicação: o carcinoma hepatocelular. A maioria das mutações genéticas que resultam no cancro (tumor) ocorrem durante a replicação celular, em que o processo de cópia do DNA conduz quase sempre a alguns a erros. Com a regeneração continua do tecido do fígado devido à destruição das células pelo virus (e resposta imunitária) esses erros acumulam-se. Outro mecanismo de mutação é a própria inserção mais ou menos aleatória do genoma do virus nos cromossomas: se algum gene ou região regulatória for interrompida, genes anti-tumorais podem ser inactivados ou genes pró-tumorais (oncogenes) hiperactivados. O resultado é que a infecção crónica pelo HBV é uma das mais importantes causas do carcinoma hepatocelular -o cancro de longe mais comum do fígado, e de mau prognóstico.

A sobre infecção de doentes com hepatite B crónica com agente delta pode levar à encefalopatia hepática (deterioração das funções intelectuais devido à incapacidade do figado de controlar os niveis de amónia neurotóxica do sangue) mais facilmente e exacerba todos os sintomas.

Diagnóstico e Tratamento


O diagnóstico da hepatite B deve não só identificar as pessoas com anticorpos contra a doença, mas também diferenciar aqueles que já tiveram a doença aguda mas estão nessa altura curados dos com hepatite crónica que necessitam de vigilância e tratamento. São usadas técnicas elaboradas de detecção de antigénios e anticorpos diferentes que surgem em diferentes estágios da doença. O episódio agudo é diagnosticado pela detecção no sangue de antigénios HBs e HBe, e anticorpos anti-HBc além de transaminases (enzimas que existem no interior dos hepatócitos e só saiem para o sangue com destruição destes: indicadores de hepatite) simultaneamente. A infecção passada resolvida caraceriza-se por anticorpos anti-HBs e anti-HBc do tipo IgG. A imunidade efectiva da vacina é determinada pela detecção de anticorpos anti-HBs do tipo IgG, mas não anti-HBc. O doente crónico apresenta no sangue antigénios HBe e HBs altos e anticorpos anti-HBc do tipo IgG mas não anti-HBs. Além disso pode ter transaminases elevadas (hepatite activa) e testes para a presença de virus no sangue (PCR) positivos.

Não há tratamento eficaz para a hepatite B. A única medida é a prevenção pela vacina, que é eficaz. A vacina é constituida pelos antigénios HBs, sem nenhuma particula viral. Administra-se por inoculação. Se a pessoa após alguns meses apresentar anticorpos anti-HBs em suficiente número, não necessitam de mais injecções, mas aqueles com menor resposta requerem novas inoculações, até três, espaçadas. Em muitos países é obrigatória. Cerca de 5% dos individuos que receberam a vacina poderão não estar mesmo assim efectivamente imunes.

Não há vacina contra HDV mas como só infecta doentes crónicos com HB a vacina do HBV é protectora. Em doentes com hepatite B, a única prevenção é a abstinencia de comportamentos de risco: sexo promiscuo e uso de seringas partilhadas.

Ligações externas


  • Hepcentro - informações sobre doenças do fígado

Doenças infecciosas

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