Uma abadia (do Latim abbatia, que deriva do Aramaico abba, "pai"), é um convento cristão, geralmente católico ("casa regular formada"), governado por um abade ou por uma abadessa, que a dirige com a dignidade de pai (ou madre) espiritual da comunidade monástica, que deve ter no mínimo 12 monges professos solenes, e cuja erecção canónica tenha sido decretada formalmente pela Santa Sé. O termo é ainda utilizado para se referir a igrejas que pertenciam a abadias entretanto extintas, como é o caso da Abadia de Westminster ou de Saint Gall. Em Portugal, também se designava como abadia a algumas freguesias cujo pároco era designado como abade, mas tal designação já não é utilizada actualmente.
Um priorado apenas difere de uma abadia pelo facto de o seu superior se intitular como prior, em vez de abade. Difere dos conventos ou mosteiros em geral, já que estes últimos podem referir-se a comunidades monásticas não cristãs. Os priorados eram, originalmente, casas subsidiárias de uma abadia principal, a cujo abade estavam subordinados. Tal distinção desapareceu praticamente a partir do renascimento.
As primeiras comunidades cristãs monásticas consistiam em grupos de celas ou cabanas reunidas em torno de um centro, onde habitava um eremita ou anacoreta de reconhecida virtude e de vida ascética exemplar, mas sem obedecer a qualquer ordem espácio-funcional. Tais comunidades já existiam, nesses moldes, entre grupos religiosos não cristãos, como os Essénios na Judeia e talvez pelos Therapeutae, no Egipto.
A importância cultural das abadias centra-se essencialmente no seu papel de preservadoras das obras da antiguidade, através do trabalho dos monges copistas que, ainda que corrompessem alguns dos textos, enriqueciam outros com comentários, além de desenvolverem a ainda hoje muito apreciada arte das iluminuras. Será das bibliotecas das abadias que sairão os textos fundadores do novo humanismo renascentista.
A importância económica das abadias, ao modificarem o seu espaço circundante, fazendo o arroteamento de matas, a secagem de pântanos, ao aplicarem e experimentarem novas técnicas agrícolas e ao incentivarem a criação de ofícios artesanais foi essencial para a conformação de uma Europa que viria a emergir com o Renascimento. Também de importância foi a sua obra de assistência social, com a fundação de albergarias onde se acolhiam pobres e peregrinos, ou de asilos e enfermarias onde era praticada a ainda incipiente medicina medieval, praticamente baseada na crença dos benefícios das sangrias.
A partir do século VII, apareceram os patronos, pertencendo a famílias poderosas, muitos dos quais subjugavam as abadias sob a sua suposta protecção e administração, fazendo a exacção dos seus recursos e impondo a sua vontade, sem qualquer preocupação com os objectivos religiosos ou culturais dos conventos, o que originou diversas reclamações. Estes senhores, os advocati, como eram designados no império Carolíngio assumiam esta função de patronato em decorrência de qualquer favor concedido, em geral de ordem militar, mas o custo era por vezes excessivo para as abadias que não suportavam a contínua exploração dos sucessivos herdeiros que se consideravam no direito de manter os privilégios e a direcção dos próprios mosteiros, influindo, por exemplo, na atribuição de cargos, como o de abade. Nos séculos XIV e XV, ainda que tais patronos fossem desaparecendo, apareceram os abades comendatários, laicos, persistindo as mesmas ingerências. Em 1567, com a reforma das Ordens monásticas, estabelecia-se o princípio da independência das abadias de qualquer controlo por parte dos leigos.
Os séculos XVIII e XIX, com as suas revoluções políticas, por vezes anticlericais, viram a extinção de várias Ordens monásticas e o encerramento de muitas abadias. Seguiu-se, em vários casos, uma autêntica delapidação do património de muitos mosteiros, como aconteceu em Portugal em 1833 e 1834, com o liberalismo. O caso do mosteiro de Tibães é paradigmático - o seu rico espólio foi vendido em hasta pública, perdendo-se assim, nas mãos de particulares, tesouros inestimáveis da arte portuguesa.
O verdadeiro fundador dos mosteiros cenobitas (koinos, comum, e bios, vida) no sentido moderno foi Pacómio, um egípcio que viveu no início do século IV. A primeira comunidade por ele estabelecida situava-se na Tebaida, mais especificamente em Tabenesi, uma ilha do Nilo, no Alto Egipto. Apesar de a sua regra ainda ter uma concepção rude, representou uma evolução interessante, ao estabelecer um modo de vida mais comunitário, afastando-se dos rigores extremos dos anacoretas. Durante a sua vida, fundaram-se, na região, outras oito comunidades, perfazendo cerca de 3 000 monges. Em menos de cinquenta anos após a sua morte, estas sociedades já contavam com cerca de 50 000 membros. Estas coenobia (plural de coenobium - sendo também usados os termos caenobium, congregatio, fraternitas e asceterion) assemelhavam-se a conjuntos de aldeias, povoadas por uma comunidade religiosa laboriosa do mesmo sexo, sob a obediência de um superior religioso.
As construções estavam separadas, eram pequenas e de carácter humilde. Cada cela ou cabana, de acordo com Sozomen (H.R. iii. 14), serviria para três monges. Tomavam a refeição principal num refeitório comum às 3 horas da tarde, depois de terem feito jejum. Comiam em silêncio, com os capuzes tão caídos para a frente que mal podiam ver outra coisa além do que constava na mesa, à sua frente. Os monges devotavam o seu tempo ao serviço religioso ou ao trabalho manual. Palladius, que visitou os mosteiros egípcios no final do século IV, encontrou, entre 300 membros do cenóbio (coenobium) de Panópolis, sob a regra de Pacómio, 15 alfaiates, 7 ferreiros, 4 carpinteiros, 12 condutores de camelos e 15 curtidores. Cada comunidade independente tinha o seu próprio oeconomus ou director, que estava sujeito a um director geral, pertencente à sede principal. Todos os produtos nascidos do trabalho dos monges ficava ao seu encargo, e eram por ele expedidos para Alexandria. O dinheiro ganho era gasto no armazenamento de víveres para a comunidade - o excendente era oferecido em caridade. Duas vezes por ano, os superiores das várias coenobia reuniam-se no mosteiro principal, sob a presidência de um arquimandrita ("chefe da congregação de fiéis," de miandra, que significa "curral do rebanho"), e na última reunião prestavam contas da sua administração anual. As coenobias da Síria pertenciam também à instituição pacomiana. Conhecem-se actualmente muitos detalhes em relação às comunidades vizinhas de Antioquia a partir dos escritos de São João Crisóstomo. Os monges viviam em cabanas individuais, separadas, kalbbia, formando um pequeno vilarejo nas abas de uma montanha. Estavam sujeitos a um abade, observando uma regra comum. (Não tinham refeitório, mas comiam a sua refeição em comum, composta apenas de pão e água, quando o dia de trabalho terminava, deitando-se em camas de palha, muitas vezes ao relento). Reuniam-se quatro vezes por dia para orações e recitação de salmos.
O mais antigo mosteiro cristão conhecido a deixar marcas que permitam vislumbrar o seu plano arquitectónico situava-se em Tebessa, na Numídia, actual Argélia, que aí foi destruído pelos muçulmanos em 535, reconstruído e, depois, de novo destruído em 683, também pelos árabes. Escavações levadas a cabo no final do século XIX permitem que vislumbremos o seu traçado original.
O monasticismo cristão europeu viria depois a nascer deste gérmen, depois da divulgação deste modo de vida por religiosos ocidentais como São Basílio de Cesareia, São Jerónimo e João Cassiano, depois de terem visitado os Padres do Deserto. São Martinho de Tours fundava, entretanto, os mosteiros de Ligugé e Marmoutier. Na Irlanda, São Columba e São Patrício seriam os grandes impulsionadores do monasticismo celta.
De início ainda existiram mosteiros duplos, em que homens e mulheres conviviam sob a direcção de um abade comum. Tais instituições foram primeiramente abolidas no Oriente, por Justiniano, preocupado com os abusos que daí podiam advir. No Ocidente, contudo, mosteiros deste género continuaram a existir em Inglaterra, França e Espanha onde se estabeleciam regras severas que não permitiam grande contacto entre as duas comunidades de sexo oposto, como acontecia nos conventos da Ordem de São Gilberto de Sempringham, em Inglaterra, ou nos mosteiros franceses de Faremoutiers, Chelles, Remiremont, etc.
O Concílio de Calcedónia, em 451, proibia a fundação de qualquer mosteiro sem a permissão do bispo local, de modo a evitar quaisquer irregularidades e para evitar o seu abandono e ruína.
À medida que se foram formando novas Ordens religiosas, em resposta a crises institucionais diversas, os monges foram também adoptando determinadas opções estéticas e pragmáticas que se traduziam no traçado das plantas dos diversos mosteiros, bem como na decoração e concepção dos espaços - por exemplo, a igreja, aberta aos fiéis, deveria transmitir algo sobre as intenções místicas da Ordem.
A necessidade de defesa perante ataques hostis, já que os conventos tinham a tendência para acumular oferendas valiosas, a economia de espaço, a conveniência de acesso de uma parte da comunidade para outra, foi dando, gradualmente, lugar uma ordenação mais funcional e compacta dos edifícios pertencentes a um coenobium monástico. Edificações de grandes dimensões foram, então, erigidas, com fortes muralhas exteriores, capazes de fazer frente a um inimigo externo. Os espaços internos passaram a organizar-se em torno de um ou mais pátios abertos, usualmente orlados por claustros. O arranjo espacial oriental mais comum pode ser exemplificado a partir do plano do convento de Grande Lavra, no monte Athos.
Este mosteiro, tal como a generalidade dos mosteiros orientais, é rodeado por uma forte e alta muralha de pedra branca, fechando uma área de cerca de 1,2 hm2 a 1,6 hm2. O lado mais longo tem cerca de 150 metros. Existe apenas uma entrada principal, no lado norte (A), defendida por três portas separadas de ferro. Perto da entrada existe uma grande torre (M), característica dos mosteiros levantinos. Existe uma pequena porta das traseiras (L). O recinto compreende dois grandes pátios abertos, rodeados de construções ligadas a galerias claustrais de madeira ou pedra. O pátio exterior, de maiores dimensões, inclui os celeiros e armazéns (K), a cozinha (H) e outros locais de trabalho ligados ao refeitório (G). Imediatamente adjacente à entrada, dispõe-se uma hospedaria de dois andares, aberta para um claustro (C). O pátio interior é rodeado por um claustro (EE) que comunica com as celas dos monges. No centro deste pátio encontra-se o catholicon, ou Igreja conventual: um edifício rectangular com uma ábside bizantina do tipo cruciforme com cúpula, aproximada por um nártex, também com cúpula. Frente à igreja pode-se ver uma fonte de mármore (F) coberta de uma cúpula suportada por colunas.
abbey_02.png|thumb|250 px|left|Mosteiro copta: A: Nártex
B: Igreja
C: Corredor, com
celas de cada
lado
D: Escadas]]
Abrindo da parte ocidental do claustro, mas situando-se, efectivamente, no pátio exterior, está o refeitório (G) - um grande edifício cruciforme, com cerca de 30 metros de largura e de comprimento, decorado interiormente com frescos relativos a diversos santos. Na extremidade superior existe um recanto semicircular, fazendo lembrar o triclinium do Palácio de Latrão em Roma, em que se situa o lugar do abade ou hegumenos. Este edifício é, contudo, usado principalmente como local de reunião, já que os monges orientais têm o hábito de tomar as refeições nas suas celas individuais.
A planta ao lado, de um mosteiro Copta, de Lenoir, mostra uma igreja com três naves, com ábsides celulares e duas fileiras de celas de cada lado de uma galeria rectangular.
Na Europa ocidental, os primeiros mosteiros aproveitaram em grande parte o traçado das vilas romanas deixadas como marca do Império Romano, reutilizando-as ou copiando a sua planta-tipo. Não há grande conhecimento quanto aos principais órgãos constituintes das abadias antes da institucionalização da regra monástica| de São Bento de Núrsia, primeiramente aplicada em Monte Cassino e que depois se difundiu, com uma rapidez quase miraculosa, por toda a Europa Ocidental. De início, e tal como se pode verificar da leitura da Regra, os mosteiros eram compostos por um oratório, de pequenas dimensões, já que se destinava única e exclusivamente para uso dos monges; um dormitório, onde pouco mais constava que uma enxerga, lençol, cobertor e travesseiro; uma cozinha e despensa, um refeitório, uma sala de leitura e oficinas. Depois de São Bento, foram erigidos mosteiros excedendo, em espaço e esplendor, tudo o que antes se vira. Poucas foram as grandes cidades Italianas que não tivessem o seu convento Beneditino - o mesmo acontecendo nos grandes centros populacionais de Inglaterra, França e Espanha. O número de mosteiros fundados de 520 a 700 é espantosa. Antes do Concílio de Constança, 1415, nada menos que 15 070 abadias, apenas desta ordem religiosa. Em Portugal, a Casa Mãe da Ordem Beneditina foi o Mosteiro de São Martinho de Tibães, que assumiu o papel de importante centro, não só religioso, mas também cultural e estético.
Tais edifícios eram organizados uniformemente segundo uma planta-tipo que apenas era modificada para se adaptar às circunstâncias próprias de cada local, como nas abadias de Durham e de Worcester, onde os mosteiros foram erigidos junto a margens escarpadas de um rio. Não existe actualmente qualquer exemplar preservado dos mosteiros beneditinos primitivos. Mas temos acesso a uma planta para o grande mosteiro Suíço de Saint Gall, elaborada cerca do ano de 820 por um autor anónimo, e que, apesar de possivelmente nunca ter sido implementada, nos permite tirar ilações quanto à forma como seria um mosteiro carolíngio de primeira classe no final do século IX. Estes planos foram investigados principalmente por Keller (Zurique, 1844) e pelo Professor Robert Willis (Arch. Journal, 1848, vol. v. pp. 86-117). Devemos, ao último, as descrições mais detalhadas e os esquemas mais reveladores, feitos a partir das transcrições que efectuou dos originais, actualmente em arquivo neste convento. A aparência geral do convento é a de uma cidade composta por casas isoladas e ruas entre elas. Foi planeada, de forma evidente, segundo as disposições da regra de São Bento, que aconselhava que o mosteiro fosse tanto quanto possível auto-suficiente, contendo todas as infra-estruturas necessárias para as necessidades básicas dos monges, bem como as construções consignadas às funções religiosas e sociais próprias do convento. Devia conter, assim, um moinho, uma padaria, estábulos para equinos e bovinos, bem como acomodações para a execução de todas as artes mecânicas necessárias, de modo a reduzir ao máximo a dependência dos monges em relação ao exterior. O claustro aparece já como um elemento agregador dos vários edifícios. Crê-se que resulte da transfiguração do atrium das construções romanas, tendo-se usado o seu espaço interior, depois do trabalho nos campos e das refeições, para a audição de prelecções de algum mestre.
A distribuição geral dos edifícios pode, então, ser descrita da seguinte forma:
A igreja, com o seu claustro a sul, ocupa o centro de uma área quadrangular, de cerca de 40 m2. Os edifícios, tal como em todos os grandes mosteiros, estavam distribuídos por grupos. A Igreja formava o núcleo, como centro da vida religiosa da comunidade. Em relação próxima com a igreja estão os edifícios que marcam o quotidiano dos monges, como o refeitório, o dormitório, o salão comum para a necessária convivência social, a sala do capítulo ou sala capitular, para reuniões de carácter disciplinar e religioso. Estes elementos essenciais da vida monástica são abrangidos por um pátio enclaustrado, rodeado por uma arcada coberta, permitindo o acesso entre os diversos edifícios, mesmo com mau tempo.
A enfermaria, para monges doentes, com a casa do físico (médico) e o jardim medicinal, dispunham-se a oriente. Nesse mesmo grupo encontrava-se a escola para a instrução dos noviços. A escola externa, com a casa do mestre-escola, junto à parede norte da Igreja, ficava fora do recinto conventual, próxima da casa do Abade, que o devia vigiar constantemente.
Os edifícios devotados à hospitalidade dividiam-se em três grupos: um para a recepção das visitas mais importantes; outro para os monges que estivessem de passagem pelo convento; outro para os viajantes pobres e peregrinos. O primeiro e terceiro ficavam nos lados da entrada comum do mosteiro. O hospitium para visitas de importância ficava do lado norte da Igreja, não muito longe da casa do Abade; as instalações para os pobres ficavam a sul, depois dos edifícios da quinta. Os monges eram alojados numa casa de hóspedes construída junto à parede norte da igreja.
O grupo de edifícios destinados à satisfação das necessidades materias do estabelecimento ficam a sul e a ocidente da Igreja, estando claramente separados dos edifícios monásticos. Chegava-se à cozinha e às oficinas por uma passagem no extremo-oeste do refeitório, estando ligadas às padarias e aos alambiques, situando-se numa dependência mais afastada. Toda a parte sul e ocidental é dedicada às oficinas de trabalho manual, estábulos e dependências ligadas ao trabalho do campo.
As construções eram apenas de um piso, com apenas algumas excepções (como o dormitório principal, sobre o calefactório). Tirando a igreja, o conjunto de trinta e três blocos separados era construído, provavelmente, de madeira.
A igreja é cruciforme, com a nave principal dividida por nove tramos e uma ábside semicircular em cada extremidade. A ábside ocidental está rodeada de um peristilo semicircular, deixando um espaço aberto, sem telhado, designado como "paraíso", antes da parede da igreja. O altar-mor fica imediatamente a leste do transepto, ou coro ritual - o altar de São Paulo - e a oeste, fica o altar de São Pedro. A fachada ocidental (Westwerk) é ladeada por duas torres campanário, cilíndricas.
Saint Gall planta.jpg|thumb|400px|right|
Planta térrea de St. Gall
Igreja:
A. Altar-mor
B. Altar de São Paulo
C. Coro
D. Nave principal.
E. Paraíso.
F. Torres
Edifícios monásticos:
1. Claustro
2. Calefactório, com dormitório em cima
3. Casa do abade
4. Refeitório(s)
5. Cozinha
6. Padaria
7. Alambiques
8. Celeiro
9. Câmara
10. Escritório e biblioteca
11. Sacristia e vestiaria
12. Noviciado
13. Eira
14. Calefactório
15. Dormitório
16. Sala do mestre-escola
17. Enfermaria
18. Casa dos Médicos
19. Jardim medicinal
20. Sala das sangrias
21. Escola
22. Casa do mestre-escola
23. Hospedaria para monges de fora
24. Hospedaria para visitas importantes
25. Cozinha da hospedaria
26. Hospedaria para pobres e peregrinos
27. Uso desconhecido
28. Cemitério
Serviços:
a. Oficinas
b. Horta/jardim
c. Casa dos jardineiros
d. Pateira (criação de patos)
e. Casa dos guardas
f. Galinheiro
g. Produção de hóstias sacramentais
h. Eira
i. Casa dos criados
j. Moinhos
k. Dormitórios dos criados
m. Redil (cabras e ovelhas)
n. Vacaria
o. Casa dos criados
p. Pocilga
q. Cavalariça
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O claustro principal, a sul da igreja tem, do lado oriental o "pisalis" ou "calefactório", a sala comum dos irmãos, aquecida por canos de chaminé que passavam por debaixo do chão. Neste mesmo lado, em mosteiros tardios, encontramos também, invariavelmente, a sala do Capítulo. De facto, a sua ausência nesta planta é insólita. Sabe-se, contudo, pelas inscrições que fazem parte da planta original, que o corredor norte dos claustros serviam para esse fim, tendo bancos de cada lado.
Sobre o calefactório encontrava-se o "dormitório" que abria para o transepto sul da igreja, de modo a permitir um rápido acesso dos monges ao serviço religioso nocturno.
O lado sul está ocupado pelo refeitório, a partir do qual de acede à cozinha, pela extremidade oeste. Esta está separada do edifício principal, e liga-se, por uma longa passagem, a um edifício onde se encontram os fornos para fazer o pão e os alambiques, bem como os dormitórios dos criados que aí trabalham. Sobre o refeitório ficava o "vestiarium," onde se guardavam as roupas do dia a dia dos confrades.
A oeste do claustro encontra-se outro edifício com dois pisos, com o celeiro no rés-do-chão e a despensa e armazém no primeiro andar. Entre este edifício e a igreja, abrindo apenas por uma porta a partir dos claustros, encontrava-se uma câmara para contactos com visitantes do exterior. A leste do transepto norte encontrava-se o "scriptorium" ou escritório, com biblioteca por cima.
A leste da igreja encontram-se um grupo de edifícios compreendendo dois estabelecimentos conventuais em menor escala e complementares. Cada um tem um claustro coberto pelas dependências usuais (dormitório, calefactório, refeitório...) e duas capelas colocadas lado a lado, em espaços opostos. Um edifício separado dos dois continha os banhos e a cozinha. Um destes "mini-conventos" destinava-se aos "oblati" ou noviços. O outro consistia na "enfermaria" para monges doentes.
A casa dos médicos ficava contígua à enfermaria e ao jardim medicinal, no canto nordeste do do mosteiro. Entre outras dependências, continha uma drogaria e uma câmara para os doentes em estado mais grave. A casa das purgas e sangrias ficava a oeste.
A "escola exterior", na área norte do convento, incluía uma grande sala de aulas dividida ao meio por uma partição e rodeada por quatro pequenos quartos, para os estudantes. A casa do mestre-escola ficava do lado oposto, junto à parede norte da igreja.
Os dois "hospitia" (ou hospedaria) para os estranhos aos conventos estavam separados consoante o nível social dos visitantes, compreendendo uma larga câmara comum ou refeitório, no centro, rodeada dos dormitórios. Cada um estava munido dos seus próprios fornos e alambiques, além de uma cozinha e despensa para os viajantes de maior importância, com quartos para os seus criados e cavalariças para tratar dos cavalos. Existia ainda um "hospitium" para monges de fora, junto à parede norte da igreja.
Para além do claustro, no extremo da fronteira do convento, a sul, ficaria a fábrica, contendo oficinas para sapateiros, fabricantes de selas (sellarii), cuteleiros, curtidores, pisoeiros, ferreiros, ourives, etc, com as suas habitações nas traseiras. Deste lado encontravam-se também a quinta, a eira, o celeiro, os moinhos, etc. A oeste ficavam os estábulos, e os redis de ovelhas, vacas e cabras, bem como as pocilgas, junto às habitações de quem aí trabalhava. A sudeste, encontravam-se as criações de patos e galinhas, bem como o quarto do guarda destas criações, junto a uma horta onde se colhiam cebolas, alhos, aipo, alfaces, papoilas, cenouras, couves, etc. No cemitério cresciam macieiras, pereiras, ameixeiras, marmeleiros, etc.
No século XII, o número de abadias filiadas a Cluny, nos vários países europeus, ascendia a cerca de dois milhares. A abadia mãe era uma das mais opulentas de França. Podemos fazer ideia das suas dimensões se tivermos em conta que em 1245, o Papa Inocêncio IV, acompanhado de doze cardeais, um patriarca, três arcebispos, dois abades-gerais dos cartuxos e cistercienses, o rei de França (São Luís) e três dos seus filhos, Balduíno, conde da Flandres e imperador de Constantinopla, o duque da Burgúndia e seis nobres, bem como todo os seus séquitos, ao visitar a abadia, ficaram aí instalados sem qualquer problema de acomodação para os frades que aí residiam, num total de 400 (no seu auge albergou 10 000 monges). Quase todos os edifícios desta abadia, contudo, foram destruídos e/ou reconstruídos no final do século XVIII, quando se adoptou uma nova planta térrea.
A igreja, de grandes proporções, media cerca de 200 metros de altura! A nave (G - na figura ao lado) tinha corredores abobadados duplos de cada lado. Tinha um transepto oriental e um transepto ocidental, cada um com capelas em ábside para leste. O transepto ocidental media cerca de 54 metros e o oriental, 37,5 metros. O Coro terminava numa ábside semicircular (F), rodeada de cinco capelas, também semicirculares. A entrada a ocidente dava para o nártex ou vestíbulo (B) que por si mesmo funcionava como Igreja com três alas, já de grandes dimensões, flaqueada por duas torres, após um lance de escadas grandioso com uma grande cruz de pedra. A sul da igreja ficava o claustro (H), também de proporções consideráveis, mas colocado mais a oeste do que era hábito. No lado sul do claustro ficava o refeitório (P), que consistia num edifício imenso de 30 por 18 metros, onde se dispunham seis filas de mesas longitudinalmente e três transversalmente. Estava adornado com os retratos dos principais beneméritos da Abadia e com temas relacionados com a História Sagrada. A parede do fundo exibia cenas relativas ao Juízo Final. Infelizmente, não se sabe qual a função do edifício representado em N. A residência do abade (K), que se mantém parcialmente preservada, ficava junto à entrada. A hospedaria (L) ficava perto. A padaria (M), que também se mantém, é um edifício à parte, também de grandes dimensões.
Contudo, em termos estéticos, há a referir a síntese estética entre o românico, próprio de grande parte dos locais onde se estabeleciam e, de certa forma, aparentado aos ideais de simplicidade da Ordem, com o gótico, onde o virtuosismo estrutural e a sua tendência decorativista se tiveram de aliar e reformular, ao fazer conviver uma concepção mais humanista com outra, essencialmente espiritual.
O plano, ao lado esquerdo, da Abadia de Santo Agostinho em Bristol, onde está actualmente a catedral desta cidade, mostra como a disposição dos edifícios difere pouco das abadias beneditinas. Em Portugal, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi, talvez, o mais importante centro religioso, cultural e de ensino desta Ordem, que, desde cedo recebeu vários privilégios reais e papais. Da planta original, de estilo românico, sabe-se apenas que a fachada incluía uma torre e que o corpo da igreja era de uma só nave, tal como era, também, característico entre os Agostinhos.
A noção de deserto, presente na origem da vida monástica é, de novo, recuperada e reinterpretada pela Ordem cartusiana que valoriza a solidão e os ermos – o deserto – como extensão do próprio espaço monástico e da clausura propensa à contemplação. Tanto os espaços agrícolas desertos a norte de Évora como a aridez alpina da Grande Chartreuse original (Grande Cartuxa) no Isère, inscrevem-se não apenas como enquadramento do mosteiro, mas como parte dele.
A norte da igreja, atrás da sacristia e das capelas laterais, fica a cela do sub-prior, com o seu jardim. Os aposentos do prior ocupam o centro do recinto exterior, logo à frente da porta ocidental da igreja e frente ao portão do convento, e um pequeno recinto mais elevado, com uma fonte, antes deste. É também neste recinto exterior que se situa a hospedaria, os estábulos e os aposentos dos irmãos-leigos, os celeiros, o pombal e a padaria, bem como uma prisão. Neste mesmo recinto, os estabelecimentos primitivos, como em Witham, tinham também uma igreja de menores dimensões.
Os recintos exterior e interior estão unidos por um longo passadiço, largo o suficiente para permitir a passagem de uma carroça carregada de lenha capaz de fornecer o combustível necessário para aquecer as celas da comunidade. O grande claustro é rodeado de 18 celas, dispostas segundo uma planta uniforme. Cada um destes pequenos aposentos é constituído por três quartos: uma pequena sala de estar aquecida por um aquecedor no inverno; um quarto de dormir com uma enxerga, uma mesa, um banco, uma estante e um armário. Entre a cela e a galeria do claustro existe uma passagem ou corredor que isola o interior da cela de todos os sons ou movimentos exteriores que poderiam interromper a meditação do frade. O superior tinha acesso livre a este corredor, de onde poderia inspeccionar os jardins, sem ser visto, através de pequenos nichos. Existe ainda uma mesa-giratória onde um irmão, designado para esse efeito, inseria a ração diária de víveres, não permitindo qualquer comunicação visual em qualquer dos sentidos (para dentro ou para fora). Um exemplo perfeito desta mesa-giratória, característica de todas as Cartuxas pode ser visto em Miraflores, perto de Burgos que se mantém praticamente inalterado desde que foi terminado em 1480.
Estas disposições encontram-se quase invariavelmente em todas as Cartuxas da Europa Ocidental. A Cartuxa de Yorkshire, em Mount Grace, fundada por Thomas Holland, o jovem duque de Surrey, sobrinho de Ricardo II de Inglaterra, durante um período de renascimento de popularidade da Ordem, cerca do ano 1397, é o exemplo inglês mais perfeitamente perservado, caracterizado pela simplicidade da Ordem. A igreja é um edifício modesto, longo, estreito e sem alas laterais. Dentro do muro da clausura existem também dois recintos, dos quais, o meridional, apresenta a típica disposição de igreja, refeitório, etc., abrindo para o claustro. Os edifícios são simples e robustos. O recinto norte inclui 14 celas.
Arquitectura religiosa | Abadias
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